Seis meses

Seis meses

Imagem retirada daqui

Custa muito não ter nada para se fazer ouvir.

Tenho-me sentido assim. Olho para os últimos meses da minha vida e fico com a sensação de língua seca, de algum ardor nos olhos provocado pelo som das palavras. Não mandamos nos nossos sentimentos, a verdade é essa.

Os últimos seis meses foram seis meses diferentes, exigentes, duros, madrastos. Foram seis meses repletos de diferentes facetas, não foram sempre maus, nem sempre bons, tivemos sempre momentos de pura alegria e felicidade. Sim, lá porque não mandamos nos nossos sentimentos  não quer dizer que não possamos exigir deles que mudem a nossa favor.

Nestes seis meses fomos obrigados a despedirmo-nos, fomos obrigados a sofrer e a aprender com esse sofrimento. Fomos obrigados a crescer, crescer é uma arte que dói e que dá muito trabalho. Desengane-se quem pensa o oposto.

Nestes seis meses fomos obrigados a voltar mais cedo, a adiar alguns planos, a trocar os sorrisos pelas lágrimas, a amar com mais força do que seria suposto. Se o que é suposto é amar com todos os músculos do nosso coração.

E passados estes seis meses, ao ver-te assim a dormir, ganho forças para acreditar que os próximos seis meses serão muito mais fáceis, que continuemos a crescer e a amar juntos, este amor que não pára de crescer. Sintamos a paz que adormece sobre as nossas cabeças, acreditemos que um dia irei domar as vírgulas das minhas frases, acreditemos que não temos de deixar de ser crianças para sermos melhores adultos.

Acreditemos.

Seis meses.

Escrever é como descascar uma laranja

Começamos por vê-la no seu todo, inteira de conteúdo e fechada para o mundo.

Olhamo-la de diversas perspectivas e ficamos com dúvidas sobre qual a mais certeira para dar o primeiro golpe. A forma denuncia o seu enigma, que nos poros da casca ecoa dificuldade de clarividência. Pegamo-la e o toque revela o seu escudo, ora mais rugoso ora mais macio. Indagamos, verificamos e finalmente arriscamos o melhor modo de a dissecar.

O meio é escolhido: entre a fineza da lâmina ou a mão rude a bruta que a viola para a trazer ao mundo. A palavra. Os primeiros golpes fazem jorrar aroma citrino que inunda o ar, o mesmo aroma das palavras que apaixonam, confundem e respondem. E continuamos a talhá-la, a abri-la e a passar para o papel aquilo que a nossa mente tenta focar, dar corpo, alinhar, organizar e explicar. E ela está exposta, madura e silenciosa.

Queremos continuar a entrar dentro do seu mundo, aprofundamos e escolhemos novamente o meio. O meio é o que mais importa.

Decidimos que ela deve ser desflorada, cada gomo revelará uma verdade, uma confidência, uma memória de infância, uma memória de algo que ainda não foi vivido, de uma palavra que será proferida, de um sentimento que está por sentir. E ela é por fim totalmente aberta, pronta a saborear, a saciar-nos.

Assim é escrever. Escrever é como descascar uma laranja, quando descascada e aberta sobre o pires deve ser saboreada doce, amarga e lentamente, tal como as palavras que escrevemos. Todas as nossas palavras devem ser sentidas assim, se as sentirmos verdadeiramente damos-lhe sentido e podemos torná-las em verdadeiras provas de liberdade. Escrever é a nossa arma e a nossa armadura, o nosso esconderijo e a nossa ribalta, a nossa dor e o nosso prazer. Escrever é a nossa loucura e a nossa sanidade, é o caminho e o lugar onde queremos chegar. Escrever é como descascar uma laranja.

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Inquietude

Há momentos na vida em que tudo se parece alinhar para nos mostrar que estamos certos.

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Quando estes momentos ocorrem, podemos fazer duas coisas: ter medo e recuar ou ter medo e seguir em frente. Tanto um caminho como o outro são válidos, pois muitas vezes a vida também nos ensina que o momento não é o certo e que se recuarmos nos estamos a preparar melhor para enfrentar uma realidade quando estivermos preparados para tal. Desta vez optei pelo segundo caminho. O caminho que me permite romper com a tranquilidade e permitir-me a inquietude. Esta inquietude que tanto nos faz falta sentir.

O caminho que estou a seguir fez-me cortar amarras e testar-me. Testar-me perante mim própria – eu, a mais implacável das críticas de mim mesma – e perante os outros, que me acompanham, espicaçam e encorajam diariamente. Este caminho que sigo é por mim e por todos eles. Escolho este caminho porque sinto-me preparada.

Há momentos na vida em que tudo se parece alinhar para nos mostrar que estamos certos.

E eu vou com medos e receios, de sorriso termido e vontade de vencer. E eu vou dar mais um passo, um de cada vez, o seguinte melhor e mais preciso que o anterior.

E eu vou.

Her

 Perhaps one did not want to be loved so much as to be understood.

George Orwell, “1984

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Her – Uma história de Amor é um manifesto sobre o Amor. Um amor que pode assumir muitas formas mas cuja característica predominante se mantém constante e imutável: a sua impossibilidade de controlo.

Na primeira sequência do filme assistimos ao protagonista Theodore verbalizar uma declaração de amor tocante, própria de alguém com uma capacidade inigualável de amar. A declaração é direccionada a alguém que Theodore não conhece e é feita no âmbito profissional, já que Theodore é uma espécie de redactor de cartas online numa empresa, uma nova profissão nascente de uma necessidade existencial com cada vez mais procura.

Começamos a antever que Theodore é um homem que atravessa um período delicado da sua existência: final de casamento e dificuldade em relacionar-se com outras pessoas.

Theodore é uma pessoa “normal” (com toda a carga simbólica que a palavra encerra)  – numa interpretação comovente de Joaquin Phoenix –  e usa a tecnologia para se organizar e entreter num grau de dependência maior do que aquele em que nos apoiamos actualmente. Por isso, quando o novo sistema operativo do seu computador, dotado de inteligência artificial, se torna a sua nova assistente pessoal – o seu mundo muda gradualmente para melhor.

O amor encontra o seu próprio tom entre a voz de um sistema operativo – “Samantha”, interpretada por Scarlett Johansson – e a voz trémula do seu utilizador que coloca várias barreiras à sua própria recuperação de um casamento falhado cujas lesões o “empurram” para um constante isolamento (apenas quebrado pela sua amizade com Amy uma mulher presa numa relação – interpretada por Amy Adams).

À medida que Samantha e Theodore se vão dando a conhecer, Samantha vai assumindo tiques humanos e desenvolvendo emoções, algo que a partir de certa altura colide com a sua própria condição digital, com a qual vai lutando para encontrar teorias que não contestem a imaterialização da sua relação. Ate lá, Samantha ajuda Theodore e fá-lo regressar progressivamente à vida, experimentando sensações e sentimentos há muito entorpecidos, como o simples toque do corpo na areia ou a alegria de correr sem destino.

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O mais paradoxal deste manifesto sobre o amor é darmos por nós a torcer por uma final feliz entre os dois ao som das maravilhosas baladas de Arcade Fire. O mais nobre desta história de amor é darmos por nós a reflectir sobre os nossos próprios actos e rotinas e a tentar perceber se estamos realmente a caminhar para aquela realidade – a convivência com a inteligência artificial – e em última instância, se queremos os side-effects daquela realidade para o nosso mundo, intuindo como ela nos poderá afetar, a nós e às nossas relações. Tal como diz Amy “Falling in love is a crazy thing to do. It’s like a socially acceptable form of insanity.”

Her – Uma História de Amor passa-se num futuro próximo – não é um universo utópico mas também não deve ser encarado como uma distopia – porém é um filme de ficção científica passado num futuro que se precipita. A atmosfera criada pelo visionário Hoyte Van Hoytema (Thinker, Tailor, Soldier, Spy) que tem tanto de misteriosa como de colorido num jogo de forças que se equilibram entre o sonho e a realidade e que serve de cenário para uma Los Angeles que parece adormecida numa existência “normalizada” por uma tecnologia que surge quase que como um apontamento – é a tecnologia dos nossos dias refinadas – numa cidade “enovoada” que parece habitada por uma calma ensombrada que se mistura com grandes arranha-céus e multidões que conversam sozinhas a caminho de casa e do trabalho – rodeadas de pessoas e em contacto com pessoas – verdadeiramente sozinhas.

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Nós, espetadores assistimos ao desenrolar de um “caso” de amor. Vemos dois seres a apaixonar-se a tentar adaptar e ultrapassar as diferenças que insistem entre si. Assistimos a uma história real por sabermos que o amor não tem controlo nem o mundo que estamos a alimentar para ele – um mundo cada vez mais optimizado, rotulado e partilhado com estranhos.

Embora o tom nobremente triste deste manifesto, a réstia de esperança é encontrada aquando de uma cena comovente em que Theodore encontra a paz e tranquilidade para escrever uma derradeira carta à sua ex-mulher e na cena final em que o mesmo consegue finalmente tocar em alguém e deixar-se ficar a contemplar a sua cidade adormecida.

Her pode tornar-se uma profecia dos tempos modernos. Só não conseguimos apurar se tais tempos já chegaram ou estão já ao virar da página.

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Philip Seymour Hoffman 1967-2014

philip seymor hofmanAssim de repente, não me lembro de não ter gostado de uma única interpretação sua.

Assim de repente, li a notícia a dar conta da sua morte.

Assim de repente, posso dizer que era um dos melhores actores da sua geração, um dos mais geniais, intensos e versáteis.

Sempre o achei  misterioso e sombrio –  o que me seduzia por nunca saber o que ia verdadeiramente na sua mente. Hoje sei que nunca o irei descobrir e tudo o que fica são as cerca de 60 interpretações com a qual me brindou ao longo da sua carreira.

A verdadeira tristeza é saber que nunca mais o verei a respirar na grande tela. Vai-se o corpo que é fraco, fica a memória que nos torna imortais.

Assim de repente.

O ginásio tira-me anos de vida

bridget jones gym

Quem me conhece bem, sabe que eu não sou muito dada à prática de nenhuma modalidade desportiva em geral. Não é que eu não saiba de todos os benefícios próprios do desporto – porque sei – mas não tenho paciência.

Hoje em dia a palavra “stress” propaga-se em inúmeros artigos sobre os problemas da vida na cidade, as adversidades da vida profissional e a chatice que é aturar verdadeiros otários nos dias que correm. Tudo isto contribui para o stress que é um factor de decréscimo da qualidade de vida de todos nós.

Pois, meus caros, para mim ir para o ginásio é factor de stress ( e isto foi algo que o meu marido me disse e me ficou a “tagarelar” no cérebro).

Ora vejamos, a pessoa tem de acordar mais cedo do que é habitual, a pessoa tem de arranjar um “saco de desporto” cujo interior deve estar repleto de roupas, toalhas, produtos de higiene. A isto devemos juntar a nossa mala de trabalho e a bela da marmita. Após acordar cedo, pegar nos dois sacos e faz, eis que a per-me ao caminho. Chegada ao ginásio deparo-me com aquela imagem do horror tremendo, um misto de cheiro a suor, plástico, borracha e ego fortivo. O horror. A pessoa faz o aquecimento, perde umas caloriazitas, e olha para o relógio na parede cujo compasso entre os ponteiros é marcado ao som do puntz puntz “música da moda para ginásio” e percebe que tem de correr ainda mais para não chegar atrasada ao trabalho. E não chega atrasada, porque correu, tomou banho na companhia de mulheres que acham que aquele é um verdadeiro momento de exibição de pelos púbicos misturados com toalhas enroladas na cabeça e bícepes bem tonificados.

Nisto, eu corro, vou a correr e chego ao trabalho com dois sacos pesados (um deles meio molhado) e uma marmita, pronta para ligar o computador, responder a e-mails e participar na reuniões. Um verdadeiro stress. Por isso, sou contra o ginásio. O ginásio tira-me anos de vida, eu gosto de calma, de paz e tranquilidade e gosto de acordar com a certeza que tenho tempo para namorar à mesa do pequeno-almoço e ir de metro para o trabalho com o meu marido. É uma questão de rotina, e em tempos tão incertos, gosto desta normalidade.

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Por isso, o meu respectivo teve uma excelente ideia “Vamos comprar uma bicicleta daquelas de ter por casa”, e eu pensei “wow” vai ser a loucura, eu vou ser a Jane Fonda dos tempos modernos, mas menos loura e sem elástico na testa. E é isso, continuo sem stress, a correr em casa, sinto um gozo tremendo  quando percebo que suei mais, que corri mais e que consegui organizar o meu dia seguinte naquela parcela de tempo que uso enquanto ele cozinha o jantar.

 

O pai faz anos!

O pai faz anos!

o pai faz anos

O almoço no Pinheirinho feito pela Dona Lourdes começa a ser feito logo pela manhã. É que Cozido à Portuguesa que se preze deve ser feito devagar, devagarinho, e de preferência, com muitas couves. Ao mesmo tempo que o almoço é feito, a primeira refeição do dia é tomada pelo aniversariante que logo depois toma um banho e vai dar a sua volta habitual.

Depois chegamos “nós” para o almoço que é regado com bom vinho e acompanhado com bom pão cortado em fatias grossas. Também há bolo, este vem da pastelaria Didu vamos provar, mas antes há que cantar os parabéns e apagar as velas. É assim que se festeja, como um dia normal, que não é normal porque o pai faz anos e daqui a umas horas são horas de rumar ao nosso destino.

Um dia foi assim, agora é algo totalmente diferente.

Bom Domingo a todos. Para o ano há mais!

Enquanto não vejo o Wolf of Wall Street…

Estou mesmo curiosa para ver The Wolf of Wall Street, e devo vê-lo entre esta noite e a de amanhã.

Enquanto a hora não chega, deixo este vídeo encontrado pelo Business Insider que nos mostra o trailer de uma perspetiva muito divertida e que nos faz recordar “a nossa velha infância” e os momentos de ouro da Rua Sésamo!

Aqui fica: The Wolf of Sesame Street